Sumptuoso, aquele que terá sido o seu último 'pas de deux' com gente de 'outras paragens'. Talvez não soubesse que Joe Henry sempre levou vida de saltimbanco estético -e que, por isso, no jazz não estava, exactamente, em branco. Mas decerto que Ornette não precisou de ouvir mais que três acordes para sentir a espessura e a profundidade de quem -na qualidade de produtor- ainda garantiu um condigno fim de vida musical a Solomon Burke.
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40 Anos a Desfazer Opinião
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segunda-feira, 15 de junho de 2015
Ornette 2: A Mulher, O Filho, Os Cúmplices, Os Discípulos e Os Amantes Dele
Os Amantes Dele 3
Sumptuoso, aquele que terá sido o seu último 'pas de deux' com gente de 'outras paragens'. Talvez não soubesse que Joe Henry sempre levou vida de saltimbanco estético -e que, por isso, no jazz não estava, exactamente, em branco. Mas decerto que Ornette não precisou de ouvir mais que três acordes para sentir a espessura e a profundidade de quem -na qualidade de produtor- ainda garantiu um condigno fim de vida musical a Solomon Burke.
Sumptuoso, aquele que terá sido o seu último 'pas de deux' com gente de 'outras paragens'. Talvez não soubesse que Joe Henry sempre levou vida de saltimbanco estético -e que, por isso, no jazz não estava, exactamente, em branco. Mas decerto que Ornette não precisou de ouvir mais que três acordes para sentir a espessura e a profundidade de quem -na qualidade de produtor- ainda garantiu um condigno fim de vida musical a Solomon Burke.
Ornette 2: A Mulher, O Filho, Os Cúmplices, Os Discípulos e Os Amantes Dele
Os Amantes Dele 2
Nunca foi muito dado a parcerias. Mas sabia quando tinha pela frente um genuíno adepto da causa jazzística. E melhor ainda como manifestá-lo de forma generosa.
https://www.youtube.com/watch?v=7FnoMVLt92U ("Gloria", LP "Femmes Et Famines", 1975)
Nunca foi muito dado a parcerias. Mas sabia quando tinha pela frente um genuíno adepto da causa jazzística. E melhor ainda como manifestá-lo de forma generosa.
https://www.youtube.com/watch?v=7FnoMVLt92U ("Gloria", LP "Femmes Et Famines", 1975)
Ornette 2: A Mulher, O Filho, Os Cúmplices, Os Discípulos e Os Amantes Dele
Os Amantes Dele
Magistral. Mesmo que a razão subjacente possa ter sido algo de tão absurdo como levar a ortodoxia a compreender que a lição 'clássica' não estava esquecida e que tão-pouco se ocultavam obscuros 'fins materiais' sob a adopção da electricidade.
Magistral. Mesmo que a razão subjacente possa ter sido algo de tão absurdo como levar a ortodoxia a compreender que a lição 'clássica' não estava esquecida e que tão-pouco se ocultavam obscuros 'fins materiais' sob a adopção da electricidade.
Ornette 2: A Mulher, O Filho, Os Cúmplices, Os Discípulos e Os Amantes Dele
Os Discípulos 4
E, depois, aspecto central do processo de democratização do gosto e da prática musicais, há o conhecimento simultâneo de diversas matérias. Mas há, sobretudo, porque assim se faz História, a convergência mágica de saber, eclectismo e ideias musicais. Que, por acaso, foi o que aconteceu com dois ex-jornalistas de Detroit -Don e David Was.
E, depois, aspecto central do processo de democratização do gosto e da prática musicais, há o conhecimento simultâneo de diversas matérias. Mas há, sobretudo, porque assim se faz História, a convergência mágica de saber, eclectismo e ideias musicais. Que, por acaso, foi o que aconteceu com dois ex-jornalistas de Detroit -Don e David Was.
Ornette 2: A Mulher, O Filho, Os Cúmplices, Os Discípulos e Os Amantes Dele
Os Discípulos 3
Quando a extinção das inúteis (e ficcionais) divisões tipológicas começou a ser um facto assimilado (primeiro, pelas elites; depois, pelo 'cidadão comum'), logo deixaram a condição da excentricidade factos como chocar com um músico versado, de igual modo, em 'disco', punk, James Brown e Ornette Coleman.
Quando a extinção das inúteis (e ficcionais) divisões tipológicas começou a ser um facto assimilado (primeiro, pelas elites; depois, pelo 'cidadão comum'), logo deixaram a condição da excentricidade factos como chocar com um músico versado, de igual modo, em 'disco', punk, James Brown e Ornette Coleman.
Ornette 2: A Mulher, O Filho, Os Cúmplices, Os Discípulos e Os Amantes Dele
Os Discípulos 2
Talvez ninguém, como ele, tenha desbravado os terrenos da escrita criativa até atingir o limiar da escrita automática. Viver no Deserto de Mojave e -como o próprio dizia- ter como únicos vizinhos coiotes e cascavéis ajuda. Mas, por muita verdade que houvesse no desejo confesso de incorporar os sopros na sua linguagem -tão crua como virtuosa- como forma de manifestação de um fascínio antigo pelo 'canto' do ganso selvagem, não podia ser mais perceptível -sobretudo em "Trout Mask Replica"- a marca de Ornette nos hábitos auditivos de Captain Beefheart. Do qual também não seria difícil encontrar mais que simples ecos na fase eléctrica de Coleman.
Talvez ninguém, como ele, tenha desbravado os terrenos da escrita criativa até atingir o limiar da escrita automática. Viver no Deserto de Mojave e -como o próprio dizia- ter como únicos vizinhos coiotes e cascavéis ajuda. Mas, por muita verdade que houvesse no desejo confesso de incorporar os sopros na sua linguagem -tão crua como virtuosa- como forma de manifestação de um fascínio antigo pelo 'canto' do ganso selvagem, não podia ser mais perceptível -sobretudo em "Trout Mask Replica"- a marca de Ornette nos hábitos auditivos de Captain Beefheart. Do qual também não seria difícil encontrar mais que simples ecos na fase eléctrica de Coleman.
Ornette 2: A Mulher, O Filho, Os Cúmplices, Os Discípulos e Os Amantes Dele
Os Discípulos (e Cúmplices 3)
James Blood Ulmer podia ter sido um discípulo de Hendrix e Sharrock, se não trouxesse já Paul Bley e Art Blakey na bagagem. De matéria-prima não carecia para erguer um edifício de linhas ousadas sobre uma sólida base de trabalho. Mas Ornette ia a passar e deu-lhe a beber do cálice harmolódico. Foi o primeiro guitarrista da fase de fusão do mestre. Muito tempo, por isso, levaria Ulmer até saciar a sede: o suficiente para levar a 'mensagem' até às regiões de um rock carente de sensações novas (não foi fraco o abalo aí causado pela edição de "Are You Glad To Be In America?" na Rough Trade). E para conceder ao saxofonista e inspirador o lugar de honra no momento da gravação da sua obra-prima: "Tales Of Captain Black". Depois, e já da sua lavra, viria o Music Revelation Ensemble.
James Blood Ulmer podia ter sido um discípulo de Hendrix e Sharrock, se não trouxesse já Paul Bley e Art Blakey na bagagem. De matéria-prima não carecia para erguer um edifício de linhas ousadas sobre uma sólida base de trabalho. Mas Ornette ia a passar e deu-lhe a beber do cálice harmolódico. Foi o primeiro guitarrista da fase de fusão do mestre. Muito tempo, por isso, levaria Ulmer até saciar a sede: o suficiente para levar a 'mensagem' até às regiões de um rock carente de sensações novas (não foi fraco o abalo aí causado pela edição de "Are You Glad To Be In America?" na Rough Trade). E para conceder ao saxofonista e inspirador o lugar de honra no momento da gravação da sua obra-prima: "Tales Of Captain Black". Depois, e já da sua lavra, viria o Music Revelation Ensemble.
Ornette 2: A Mulher, O Filho, Os Cúmplices, Os Discípulos e Os Amantes Dele
Os Cúmplices 2
Vê-lo tocar baixo eléctrico num único concerto bastou para que Ornette compreendesse que já tinha homem a quem confiar lugar tão essencial no dispositivo harmolódico. Também não lhe escapou que tinha asas para voar por conta própria e levar a mensagem a outros territórios (que a dedução estava certa prova-o a presença de "Decode Yourself" na lista dos 50 melhores álbuns de 1985 do New Musical Express).
Vê-lo tocar baixo eléctrico num único concerto bastou para que Ornette compreendesse que já tinha homem a quem confiar lugar tão essencial no dispositivo harmolódico. Também não lhe escapou que tinha asas para voar por conta própria e levar a mensagem a outros territórios (que a dedução estava certa prova-o a presença de "Decode Yourself" na lista dos 50 melhores álbuns de 1985 do New Musical Express).
Ornette 2: A Mulher, O Filho, Os Cúmplices, Os Discípulos e Os Amantes Dele
Os Cúmplices
A dinâmica criada entre Ornette Coleman e Don Cherry foi sempre uma espécie de conversa em que as falas tão depressa convergem como se desencontram, mantida por dois amigos que, afinal, estão de acordo e, no fundo, querem o mesmo. Uma forma superiormente moderna de diálogo, e não apenas o passo seguinte nas rotas da polifonia.
A dinâmica criada entre Ornette Coleman e Don Cherry foi sempre uma espécie de conversa em que as falas tão depressa convergem como se desencontram, mantida por dois amigos que, afinal, estão de acordo e, no fundo, querem o mesmo. Uma forma superiormente moderna de diálogo, e não apenas o passo seguinte nas rotas da polifonia.
Ornette 2: A Mulher, O Filho, Os Cúmplices, Os Discípulos e Os Amantes Dele
O Filho
Denardo Coleman tornou-se baterista do grupo de seu pai aos 12 anos de idade. A sua presença viria a revelar-se do maior relevo na concretização da 'teoria harmolódica' e na génese e organização de uma linguagem eléctrica extra-davisiana. Embora menos notado, "Of Human Feelings" (1982) foi a obra-prima desta opção estética e a síntese definitiva da intersecção punk-jazz-funk. Talvez, o último genuíno momento visionário do saxofonista.
Denardo Coleman tornou-se baterista do grupo de seu pai aos 12 anos de idade. A sua presença viria a revelar-se do maior relevo na concretização da 'teoria harmolódica' e na génese e organização de uma linguagem eléctrica extra-davisiana. Embora menos notado, "Of Human Feelings" (1982) foi a obra-prima desta opção estética e a síntese definitiva da intersecção punk-jazz-funk. Talvez, o último genuíno momento visionário do saxofonista.
Ornette 2: A Mulher, O Filho, Os Cúmplices, Os Discípulos e Os Amantes Dele
A Mulher
Ornette Coleman e Jayne Cortez casaram em 1954. O seu filho, Denardo, nasceu em 1955. A relação conjugal durou até 1964. A estética terá, alguma vez, terminado?
Ornette Coleman e Jayne Cortez casaram em 1954. O seu filho, Denardo, nasceu em 1955. A relação conjugal durou até 1964. A estética terá, alguma vez, terminado?
sexta-feira, 12 de junho de 2015
A Partida dos Blues 8
"Virgin Beauty". Assim mesmo. Mas não confundir com 'paisagismo' ou simulacro 'new-age' de beleza. "Still waters run deep", como se diz da calma aparente? Mais que isso. Há, aqui, um tumulto interior, burilado por muita vida. E que maior sapiência converte em riqueza que já está para além da noção de belo. "Quiet storm" talvez seja mais a ideia. E o que ainda estava para vir seria um livro aberto a este respeito. Peace!
https://www.youtube.com/watch?v=Od0rAFWauGc
https://www.youtube.com/watch?v=Od0rAFWauGc
A Partida dos Blues 7
O tema principal da sinfonia regressa à cena. Para que se perceba o alcance da dimensão da metamorfose harmolódica no discurso colemaniano; mas também para um demorado 'travelling' sobre a mesma América em versão estilizada e modernista. Se "Trout Mask Replica", de Captain Beefheart, estava pejado de impressões digitais de Ornette, a sombra do eremita do Deserto de Mojave paira sobre o período harmolódico (harmonia, melodia e ritmo num só nível de acção estética) do velho companheiro de aventuras -e de outras tantas descobertas- de Don Cherry. Chama-se a isto 'cross-polination'.
A Partida dos Blues 6
Claro que esta foi a experiência 'third stream' de Ornette. Mas será delírio pensar que não é só isso? Por exemplo, duas culturas convivendo, e construindo uma História comum, em 'pé de guerra'. Assim se fez a América. E assim 'descrevia' Ornette que viram os seus olhos sob os céus do 'big country'.. Sem açúcar nem afecto. Este país não é para moles.
A Partida dos Blues 5
Linguagem, sempre, telúrica. Porque de raízes cravadas, bem fundo, na terra que o viu nascer e agora reclama o seu regresso. Sempre. Mesmo quando sentia o futuro a chegar do Espaço para onde outros homens, então, partiam para hastear bandeiras e recolher pedaços de solo. Voz de Asha Puthli.
A Partida dos Blues 4
Razão mais que suficiente para -se já não houvesse uma- fundar uma editora chamada... Verve. Ou como a torrencialidade do discurso apenas adquire significado quando dispõe de alma/substância que a suporte. Uma obra prima (preferível na versão integral...).
A Partida dos Blues 3
Quem -na alvorada da 'black rage'- se sairia com semelhante louvor ao lirismo? Se de inúmeras formas se distingue o requinte da vulgaridade, por certo que esta não se conta entre as de menor envergadura.
A Partida dos Blues 2
Não há palavras que descrevam Ornette. Fiicará na História por mil e uma razões e um punhado de intervenções nas camadas mais profundas da estrutura da linguagem musical. Da subversão do legado bebop à invenção do 'sistema harmolódico' e -apesar do 'workshop' de Mingus e Macero- dos fundamentos da acção 'free' à incursão pela música contemporânea.
Reduzir o saxofonista à condição de 'inventor e esteta do free jazz' será o mesmo que consagrar Hitchcock como 'rei do suspense', sem grande importância atribuir ao facto de que -da culpa ao sexo e da seta apontada ao coração da hipocrisia puritana ao peso das aparências numa sociedade onde já se perdia a noção de verdade- uma boa vintena de aspectos se afirmam de forma mais peremptória para definir silhueta e conteúdo de uma obra.
Motivos não faltam para admirar Ornette; mas nada de mais crucial se lhe terá ficado a dever que a reinvenção dos blues em contexto pós-bop e seu apetrechamento para um previsível futuro em constante mutação.
Count Basie, Duke Ellington, Miles Davis, Captain Beefheart e Tom Waits foram -como ele- os estetas mais aptos a compreender em que momento um idioma de idade avançada -como um ser humano- necessita de sangue novo para subsistir e permanecer útil ao mundo. Aliás, mas numa perspectiva mais vasta, Ornette terá sido -a par de Beefheart, Miles, Macero, Joe Meek, Hendrix, Brown e Sly Stone- o músico mais, genuinamente, moderno da década de 60. Embora fruto do acaso e prova dos caprichos da música, queiram descobrir -em jeito de "Onde Está Wally?"- onde foi Ian Dury desencantar o refrão de "Sex & Drugs & Rock'N'Roll"? Conselho: mantenham Charlie Haden debaixo de olho...
Reduzir o saxofonista à condição de 'inventor e esteta do free jazz' será o mesmo que consagrar Hitchcock como 'rei do suspense', sem grande importância atribuir ao facto de que -da culpa ao sexo e da seta apontada ao coração da hipocrisia puritana ao peso das aparências numa sociedade onde já se perdia a noção de verdade- uma boa vintena de aspectos se afirmam de forma mais peremptória para definir silhueta e conteúdo de uma obra.
Motivos não faltam para admirar Ornette; mas nada de mais crucial se lhe terá ficado a dever que a reinvenção dos blues em contexto pós-bop e seu apetrechamento para um previsível futuro em constante mutação.
Count Basie, Duke Ellington, Miles Davis, Captain Beefheart e Tom Waits foram -como ele- os estetas mais aptos a compreender em que momento um idioma de idade avançada -como um ser humano- necessita de sangue novo para subsistir e permanecer útil ao mundo. Aliás, mas numa perspectiva mais vasta, Ornette terá sido -a par de Beefheart, Miles, Macero, Joe Meek, Hendrix, Brown e Sly Stone- o músico mais, genuinamente, moderno da década de 60. Embora fruto do acaso e prova dos caprichos da música, queiram descobrir -em jeito de "Onde Está Wally?"- onde foi Ian Dury desencantar o refrão de "Sex & Drugs & Rock'N'Roll"? Conselho: mantenham Charlie Haden debaixo de olho...
A Partida dos Blues 1
Tinha 85 anos de idade, mas a sua música parecia ter séculos. Vinha do mais fundo da América e sobrevoou, sempre, os cumes da modernidade. Partiu ontem e -apesar de cúmplices, discípulos, filho (tudo isto era numa só pessoa) e Jayne Cortez, ex-mulher e mãe de Denardo- ninguém sabe, ao certo, e de momento, se deixou herdeiros.
Logo no álbum de estreia, "Something Else!!!!", 1958, se interrogava: "When Will The Blues Leave?". A resposta -mais retórica que a pergunta, espera-se- veio ontem, quando o mágico de Forth Worth, Texas, escolheu New York, New York, na hora do adeus. Como quem sublinha (e remata) com magistral ironia geográfica o sentido estético de uma longa e fértil viagem que ainda terá sabido a pouco.
Porque ainda tinha muito para dar? Decerto que não, embora a 'loja' ainda não tivesse encerrado. E Ornette nunca se repetiu e inovou sempre, se bem que tivesse uns quantos 'portos seguros' aos quais gostava de voltar. Como quem passa por casa, para manter vivo no espírito o que de mais elementar aí lhe foi confiado: os pilares do pensamento singular, o apego à memória, as sementes do futuro e a coragem de -desafiando o mundo e seus códigos- mudar.
Logo no álbum de estreia, "Something Else!!!!", 1958, se interrogava: "When Will The Blues Leave?". A resposta -mais retórica que a pergunta, espera-se- veio ontem, quando o mágico de Forth Worth, Texas, escolheu New York, New York, na hora do adeus. Como quem sublinha (e remata) com magistral ironia geográfica o sentido estético de uma longa e fértil viagem que ainda terá sabido a pouco.
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