Talvez ninguém, como ele, tenha desbravado os terrenos da escrita criativa até atingir o limiar da escrita automática. Viver no Deserto de Mojave e -como o próprio dizia- ter como únicos vizinhos coiotes e cascavéis ajuda. Mas, por muita verdade que houvesse no desejo confesso de incorporar os sopros na sua linguagem -tão crua como virtuosa- como forma de manifestação de um fascínio antigo pelo 'canto' do ganso selvagem, não podia ser mais perceptível -sobretudo em "Trout Mask Replica"- a marca de Ornette nos hábitos auditivos de Captain Beefheart. Do qual também não seria difícil encontrar mais que simples ecos na fase eléctrica de Coleman.
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40 Anos a Desfazer Opinião
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segunda-feira, 15 de junho de 2015
Ornette 2: A Mulher, O Filho, Os Cúmplices, Os Discípulos e Os Amantes Dele
Os Discípulos 2
Talvez ninguém, como ele, tenha desbravado os terrenos da escrita criativa até atingir o limiar da escrita automática. Viver no Deserto de Mojave e -como o próprio dizia- ter como únicos vizinhos coiotes e cascavéis ajuda. Mas, por muita verdade que houvesse no desejo confesso de incorporar os sopros na sua linguagem -tão crua como virtuosa- como forma de manifestação de um fascínio antigo pelo 'canto' do ganso selvagem, não podia ser mais perceptível -sobretudo em "Trout Mask Replica"- a marca de Ornette nos hábitos auditivos de Captain Beefheart. Do qual também não seria difícil encontrar mais que simples ecos na fase eléctrica de Coleman.
Talvez ninguém, como ele, tenha desbravado os terrenos da escrita criativa até atingir o limiar da escrita automática. Viver no Deserto de Mojave e -como o próprio dizia- ter como únicos vizinhos coiotes e cascavéis ajuda. Mas, por muita verdade que houvesse no desejo confesso de incorporar os sopros na sua linguagem -tão crua como virtuosa- como forma de manifestação de um fascínio antigo pelo 'canto' do ganso selvagem, não podia ser mais perceptível -sobretudo em "Trout Mask Replica"- a marca de Ornette nos hábitos auditivos de Captain Beefheart. Do qual também não seria difícil encontrar mais que simples ecos na fase eléctrica de Coleman.
sexta-feira, 12 de junho de 2015
A Partida dos Blues 2
Não há palavras que descrevam Ornette. Fiicará na História por mil e uma razões e um punhado de intervenções nas camadas mais profundas da estrutura da linguagem musical. Da subversão do legado bebop à invenção do 'sistema harmolódico' e -apesar do 'workshop' de Mingus e Macero- dos fundamentos da acção 'free' à incursão pela música contemporânea.
Reduzir o saxofonista à condição de 'inventor e esteta do free jazz' será o mesmo que consagrar Hitchcock como 'rei do suspense', sem grande importância atribuir ao facto de que -da culpa ao sexo e da seta apontada ao coração da hipocrisia puritana ao peso das aparências numa sociedade onde já se perdia a noção de verdade- uma boa vintena de aspectos se afirmam de forma mais peremptória para definir silhueta e conteúdo de uma obra.
Motivos não faltam para admirar Ornette; mas nada de mais crucial se lhe terá ficado a dever que a reinvenção dos blues em contexto pós-bop e seu apetrechamento para um previsível futuro em constante mutação.
Count Basie, Duke Ellington, Miles Davis, Captain Beefheart e Tom Waits foram -como ele- os estetas mais aptos a compreender em que momento um idioma de idade avançada -como um ser humano- necessita de sangue novo para subsistir e permanecer útil ao mundo. Aliás, mas numa perspectiva mais vasta, Ornette terá sido -a par de Beefheart, Miles, Macero, Joe Meek, Hendrix, Brown e Sly Stone- o músico mais, genuinamente, moderno da década de 60. Embora fruto do acaso e prova dos caprichos da música, queiram descobrir -em jeito de "Onde Está Wally?"- onde foi Ian Dury desencantar o refrão de "Sex & Drugs & Rock'N'Roll"? Conselho: mantenham Charlie Haden debaixo de olho...
Reduzir o saxofonista à condição de 'inventor e esteta do free jazz' será o mesmo que consagrar Hitchcock como 'rei do suspense', sem grande importância atribuir ao facto de que -da culpa ao sexo e da seta apontada ao coração da hipocrisia puritana ao peso das aparências numa sociedade onde já se perdia a noção de verdade- uma boa vintena de aspectos se afirmam de forma mais peremptória para definir silhueta e conteúdo de uma obra.
Motivos não faltam para admirar Ornette; mas nada de mais crucial se lhe terá ficado a dever que a reinvenção dos blues em contexto pós-bop e seu apetrechamento para um previsível futuro em constante mutação.
Count Basie, Duke Ellington, Miles Davis, Captain Beefheart e Tom Waits foram -como ele- os estetas mais aptos a compreender em que momento um idioma de idade avançada -como um ser humano- necessita de sangue novo para subsistir e permanecer útil ao mundo. Aliás, mas numa perspectiva mais vasta, Ornette terá sido -a par de Beefheart, Miles, Macero, Joe Meek, Hendrix, Brown e Sly Stone- o músico mais, genuinamente, moderno da década de 60. Embora fruto do acaso e prova dos caprichos da música, queiram descobrir -em jeito de "Onde Está Wally?"- onde foi Ian Dury desencantar o refrão de "Sex & Drugs & Rock'N'Roll"? Conselho: mantenham Charlie Haden debaixo de olho...
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