Lema

40 Anos a Desfazer Opinião

terça-feira, 22 de julho de 2014

Diamantes 4

Hamilton Bohannon - Save Their Souls
O funk nunca foi uma prova de velocidade. Aliás, nos casos de excesso, devia haver lugar a multa. Porque privá-lo do espaço e do silêncio pode equivaler à sua anulação. E foi tempo para manifestar a sua presença que a figura mais singular da música negra de 70 lhe concedeu. O homem da Geórgia, que ficou associado (redutoramente) ao 'disco-sound' e que ergueu -a par de James Brown- as peças mais hipnóticas do funk da década de 70, esculpiu a sua obra-prima num exercício de 'slow-motion'. O qual quase se torna chocante pela forma como cada sílaba, cada nota de baixo, cada marcação rítmica adquire um elevadíssimo valor, e liberta redobrada sensualidade, no confronto com os rituais 'pré-trance' que puseram tão improvável nome no mapa.

terça-feira, 15 de julho de 2014

A Cereja Do Topo 3

Sérgio Mendes And Brasil 66 - Stillness
Conhecida a veia do virtuoso do samba-jazz e com o duradouro período 'radio-friendly' no limiar do esgotamento, um gesto decidido se exigia de quem não fora talhado para ingressar na História à mercê do destino. Assim, depois de uma fase em que o seu inigualável 'toque de midas' na frente orquestral fizera brotar ouro de qualquer matéria-prima do domínio público (sorte, a de uma canção que vive duas vezes), chegou o momento do 'tour de force' e de não recear expressões como 'adult oriented' mas, antes, incutir-lhe um saber imbuído de uma energia telúrica trazida lá de casa na bagagem que não se declara em nenhuma alfândega. "Stillness" como, mais tarde, "Quiet Storm"?

Diamantes 3

Eden Ahbez - Nature Boy
A melhor canção autobiográfica da História? Tenha sido ditada por razões tão íntimas como celebrar a entrega incondicional à Natureza enquanto não se fazia tarde ou reviver a memória de alguém que passou a dela fazer parte porque nada é eterno, poucas vezes a música terá sido capaz de exprimir beleza e profundidade tão aptas a rivalizar com o seu próprio objecto. Conhecer a singularidade da existência errática e bucólica deste pré-hippie mais empurra no sentido da pergunta do início. E, depois de se saber que, ao cabo de voltas e mais voltas, o espírito luminoso que gerara tão bela canção foi descoberto numa tenda instalada abaixo do primeiro 'L' da palavra HOLLYWOOD, já de lá não se sai. Nota: para o conhecimento desta peça única em todo o seu esplendor pictórico, oiça-se Nat King Cole; para uma breve, mas séria, aproximação à sua verdade interior, oiça-se Jon Hassell.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

A Cereja do Topo 2

Rocky Marsiano - Meu Kamba
A cereja nacional, este ano, é de boa qualidade. Vindo de longe, vive connosco há tempo bastante para que o tratemos como um dos nossos. E, para além da invejável destreza, possui outro traço muito próprio: não faz música como se estivesse em risco de perder o avião. Quer dizer que -nuns discos mais, noutros menos- na sua música se respira e dentro dela se abrem espaços para -quem assim o deseje- decifrar códigos no que mais não é que para degustar. E este repasto muito de novo nos traz. Porque não tem sido fácil a reactivação de um diálogo luso-africano simultaneamente banhado pelas luzes da contemporaneidade e da tradição. Sem qualquer desprimor para aventuras de valor reconhecido além-fronteiras, reside a diferença, justamente, nesse ponto. Aqui, não se parte de lá nem de cá: contemplam-se, com olhar sabido, duas realidades e estuda-se a forma mais natural de insuflar vida nova a uma 'dança de família' perdida no tempo (e na política). Talvez porque pouca gente tenha dado a merecida atenção aos episódios de relevo de Ruy Mingas, ao pioneirismo modernista de Bonga nos 70 e ao 'período afro' do Duo Ouro Negro.

Diamantes 2

Sarah Vaughan - Moonlight In Vermont
Há coisas que não são deste mundo mas fazem parte da nossa existência. E há outras que nasceram a nosso lado mas de que poucas vezes nos lembramos. Por vezes, juntam-se e dão-nos uma lição de vida. Que consiste em mostrar até onde pode chegar o encantamento quando os nossos objectos de fascínio se dão as mãos. Acontece pouco mas acontece. E tudo parece fluir como se as coisas fossem assim mesmo. Não são: é preciso génio para que o sejam. Não fica, no fim, a ideia -quase certeza- de que foi aqui mesmo que nasceu a expressão 'lua de mel'?

sábado, 5 de julho de 2014

A Cereja do Topo

Miles Davis - A Surrey With A Fringe On Top
A Mãe de Todas As Cerejas. Nem 'surrey' é um bolo, nem 'fringe' é uma cereja. Mas por que razão ambos formam um conjunto tão suculento, do qual emana tão intenso sabor como o do fruto que aqui virá encimar algumas peças saídas da nossa confeitaria? Miles: diz-nos a verdade! Voltaste a fazer das tuas?

Diamantes

Amy Winehouse - 'Round Midnight
Quando ouvimos um clássico e o comentário que nos ocorre é "já ouvi isto em qualquer lado", quer dizer que estamos na presença de alguém muito especial -sobretudo porque sobredotado na difícil arte da transfiguração.
Os diamantes são eternos? Não tenho ideia formada sobre o assunto. Mas este é.