Conhecida a veia do virtuoso do samba-jazz e com o duradouro período 'radio-friendly' no limiar do esgotamento, um gesto decidido se exigia de quem não fora talhado para ingressar na História à mercê do destino. Assim, depois de uma fase em que o seu inigualável 'toque de midas' na frente orquestral fizera brotar ouro de qualquer matéria-prima do domínio público (sorte, a de uma canção que vive duas vezes), chegou o momento do 'tour de force' e de não recear expressões como 'adult oriented' mas, antes, incutir-lhe um saber imbuído de uma energia telúrica trazida lá de casa na bagagem que não se declara em nenhuma alfândega. "Stillness" como, mais tarde, "Quiet Storm"?
terça-feira, 15 de julho de 2014
A Cereja Do Topo 3
Sérgio Mendes And Brasil 66 - Stillness
Conhecida a veia do virtuoso do samba-jazz e com o duradouro período 'radio-friendly' no limiar do esgotamento, um gesto decidido se exigia de quem não fora talhado para ingressar na História à mercê do destino. Assim, depois de uma fase em que o seu inigualável 'toque de midas' na frente orquestral fizera brotar ouro de qualquer matéria-prima do domínio público (sorte, a de uma canção que vive duas vezes), chegou o momento do 'tour de force' e de não recear expressões como 'adult oriented' mas, antes, incutir-lhe um saber imbuído de uma energia telúrica trazida lá de casa na bagagem que não se declara em nenhuma alfândega. "Stillness" como, mais tarde, "Quiet Storm"?
Conhecida a veia do virtuoso do samba-jazz e com o duradouro período 'radio-friendly' no limiar do esgotamento, um gesto decidido se exigia de quem não fora talhado para ingressar na História à mercê do destino. Assim, depois de uma fase em que o seu inigualável 'toque de midas' na frente orquestral fizera brotar ouro de qualquer matéria-prima do domínio público (sorte, a de uma canção que vive duas vezes), chegou o momento do 'tour de force' e de não recear expressões como 'adult oriented' mas, antes, incutir-lhe um saber imbuído de uma energia telúrica trazida lá de casa na bagagem que não se declara em nenhuma alfândega. "Stillness" como, mais tarde, "Quiet Storm"?
Diamantes 3
Eden Ahbez - Nature Boy
A melhor canção autobiográfica da História? Tenha sido ditada por razões tão íntimas como celebrar a entrega incondicional à Natureza enquanto não se fazia tarde ou reviver a memória de alguém que passou a dela fazer parte porque nada é eterno, poucas vezes a música terá sido capaz de exprimir beleza e profundidade tão aptas a rivalizar com o seu próprio objecto. Conhecer a singularidade da existência errática e bucólica deste pré-hippie mais empurra no sentido da pergunta do início. E, depois de se saber que, ao cabo de voltas e mais voltas, o espírito luminoso que gerara tão bela canção foi descoberto numa tenda instalada abaixo do primeiro 'L' da palavra HOLLYWOOD, já de lá não se sai. Nota: para o conhecimento desta peça única em todo o seu esplendor pictórico, oiça-se Nat King Cole; para uma breve, mas séria, aproximação à sua verdade interior, oiça-se Jon Hassell.
A melhor canção autobiográfica da História? Tenha sido ditada por razões tão íntimas como celebrar a entrega incondicional à Natureza enquanto não se fazia tarde ou reviver a memória de alguém que passou a dela fazer parte porque nada é eterno, poucas vezes a música terá sido capaz de exprimir beleza e profundidade tão aptas a rivalizar com o seu próprio objecto. Conhecer a singularidade da existência errática e bucólica deste pré-hippie mais empurra no sentido da pergunta do início. E, depois de se saber que, ao cabo de voltas e mais voltas, o espírito luminoso que gerara tão bela canção foi descoberto numa tenda instalada abaixo do primeiro 'L' da palavra HOLLYWOOD, já de lá não se sai. Nota: para o conhecimento desta peça única em todo o seu esplendor pictórico, oiça-se Nat King Cole; para uma breve, mas séria, aproximação à sua verdade interior, oiça-se Jon Hassell.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
A Cereja do Topo 2
Rocky Marsiano - Meu Kamba
A cereja nacional, este ano, é de boa qualidade. Vindo de longe, vive connosco há tempo bastante para que o tratemos como um dos nossos. E, para além da invejável destreza, possui outro traço muito próprio: não faz música como se estivesse em risco de perder o avião. Quer dizer que -nuns discos mais, noutros menos- na sua música se respira e dentro dela se abrem espaços para -quem assim o deseje- decifrar códigos no que mais não é que para degustar. E este repasto muito de novo nos traz. Porque não tem sido fácil a reactivação de um diálogo luso-africano simultaneamente banhado pelas luzes da contemporaneidade e da tradição. Sem qualquer desprimor para aventuras de valor reconhecido além-fronteiras, reside a diferença, justamente, nesse ponto. Aqui, não se parte de lá nem de cá: contemplam-se, com olhar sabido, duas realidades e estuda-se a forma mais natural de insuflar vida nova a uma 'dança de família' perdida no tempo (e na política). Talvez porque pouca gente tenha dado a merecida atenção aos episódios de relevo de Ruy Mingas, ao pioneirismo modernista de Bonga nos 70 e ao 'período afro' do Duo Ouro Negro.
A cereja nacional, este ano, é de boa qualidade. Vindo de longe, vive connosco há tempo bastante para que o tratemos como um dos nossos. E, para além da invejável destreza, possui outro traço muito próprio: não faz música como se estivesse em risco de perder o avião. Quer dizer que -nuns discos mais, noutros menos- na sua música se respira e dentro dela se abrem espaços para -quem assim o deseje- decifrar códigos no que mais não é que para degustar. E este repasto muito de novo nos traz. Porque não tem sido fácil a reactivação de um diálogo luso-africano simultaneamente banhado pelas luzes da contemporaneidade e da tradição. Sem qualquer desprimor para aventuras de valor reconhecido além-fronteiras, reside a diferença, justamente, nesse ponto. Aqui, não se parte de lá nem de cá: contemplam-se, com olhar sabido, duas realidades e estuda-se a forma mais natural de insuflar vida nova a uma 'dança de família' perdida no tempo (e na política). Talvez porque pouca gente tenha dado a merecida atenção aos episódios de relevo de Ruy Mingas, ao pioneirismo modernista de Bonga nos 70 e ao 'período afro' do Duo Ouro Negro.
Diamantes 2
Sarah Vaughan - Moonlight In Vermont
Há coisas que não são deste mundo mas fazem parte da nossa existência. E há outras que nasceram a nosso lado mas de que poucas vezes nos lembramos. Por vezes, juntam-se e dão-nos uma lição de vida. Que consiste em mostrar até onde pode chegar o encantamento quando os nossos objectos de fascínio se dão as mãos. Acontece pouco mas acontece. E tudo parece fluir como se as coisas fossem assim mesmo. Não são: é preciso génio para que o sejam. Não fica, no fim, a ideia -quase certeza- de que foi aqui mesmo que nasceu a expressão 'lua de mel'?
Há coisas que não são deste mundo mas fazem parte da nossa existência. E há outras que nasceram a nosso lado mas de que poucas vezes nos lembramos. Por vezes, juntam-se e dão-nos uma lição de vida. Que consiste em mostrar até onde pode chegar o encantamento quando os nossos objectos de fascínio se dão as mãos. Acontece pouco mas acontece. E tudo parece fluir como se as coisas fossem assim mesmo. Não são: é preciso génio para que o sejam. Não fica, no fim, a ideia -quase certeza- de que foi aqui mesmo que nasceu a expressão 'lua de mel'?
sábado, 5 de julho de 2014
A Cereja do Topo
Miles Davis - A Surrey With A Fringe On Top
A Mãe de Todas As Cerejas. Nem 'surrey' é um bolo, nem 'fringe' é uma cereja. Mas por que razão ambos formam um conjunto tão suculento, do qual emana tão intenso sabor como o do fruto que aqui virá encimar algumas peças saídas da nossa confeitaria? Miles: diz-nos a verdade! Voltaste a fazer das tuas?
A Mãe de Todas As Cerejas. Nem 'surrey' é um bolo, nem 'fringe' é uma cereja. Mas por que razão ambos formam um conjunto tão suculento, do qual emana tão intenso sabor como o do fruto que aqui virá encimar algumas peças saídas da nossa confeitaria? Miles: diz-nos a verdade! Voltaste a fazer das tuas?
Diamantes
Amy Winehouse - 'Round Midnight
Quando ouvimos um clássico e o comentário que nos ocorre é "já ouvi isto em qualquer lado", quer dizer que estamos na presença de alguém muito especial -sobretudo porque sobredotado na difícil arte da transfiguração.
Os diamantes são eternos? Não tenho ideia formada sobre o assunto. Mas este é.
Quando ouvimos um clássico e o comentário que nos ocorre é "já ouvi isto em qualquer lado", quer dizer que estamos na presença de alguém muito especial -sobretudo porque sobredotado na difícil arte da transfiguração.
Os diamantes são eternos? Não tenho ideia formada sobre o assunto. Mas este é.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
Outro Imenso Adeus
Adeus, Bobby. E, sobretudo, obrigado. Pela música e pela integridade. Quando o fiz pela última vez, já o instinto me segredava que talvez fosse a última crítica que escrevia sobre um disco teu. Sentia-se próxima -vá-se lá saber porquê- a hora de ser a tua vez de partir para a Lua. Descansa em Paz. Nós, que nela raramente vivemos, temos outro bem que nos insufla alento e coragem para prosseguir. Que nos dá vida: a tua música. Boa viagem (a gente toma conta disto).
Por muito extraordinário que pareça, a última vez que sobre ele escrevi foi -aqui, neste mesmo blogue- no dia da sua morte, sem que soubesse da triste nova. Remonta a 2012, este meu penúltimo texto sobre Bobby Womack, cantor soul norte-americano (e autor do primeiro êxito dos Rolling Stones) falecido em 27 de Junho de 2014:
Por muito extraordinário que pareça, a última vez que sobre ele escrevi foi -aqui, neste mesmo blogue- no dia da sua morte, sem que soubesse da triste nova. Remonta a 2012, este meu penúltimo texto sobre Bobby Womack, cantor soul norte-americano (e autor do primeiro êxito dos Rolling Stones) falecido em 27 de Junho de 2014:
BOBBY WOMACK: The Bravest
Man In the Universe
Nenhum exagero no título. James Brown
ficou como the hardest working man in the
show-business, graças a uma produção demencial (até uma paragem do
autocarro -a meio de exaustivas digressões- era pretexto para uma ‘visitinha’
ao estúdio local). Agora, e antes que se faça tarde, convém notar como o autor
do primeiro êxito dos Rolling Stones (‘It’s All Over Now’, 1964) já vai no 27º
álbum, sem que alguma vez tenha feito a menor concessão. Na verdade, se James
Brown teve que sentir na pele o melindre da desqualificação implícita na
passagem de soul brother no.1 para sold brother no.1 nos conturbados dias
de Nixon/Watergate, o mais célebre membro do clã Womack começou por avaliar a
temperatura da alma num trivial “Fly Me To The Moon” (1968) e logo se decidiu
por um mergulho sem regresso até às regiões mais recônditas da condição humana
em “My Prescription” (1969) e “Communication” (1971). Já nada de condenável
teria feito para manchar tão nobre imagem se o novo disco respeitasse o
padrão-médio de interesse estético de (outro) meio-século de carreira. Mas que
regresse mediante uma manifestação mais moderna, fresca e urgente que o facto
comum da nata neo-soul, que as linhas
com que se cose sugiram a base de uma radical versão ‘nortista’ da mesma
redescoberta da necessidade de introspecção da Gal Costa de “Recanto” e que
seja este o momento mais arrojado de uma empolgante escrita criativa que não
atingia ‘tais alturas’ desde o duplo prodígio “The Poet/The Poet II” (1981/84),
eis o conjunto de circunstâncias onde recolhe pleno sentido o título deste
primeiro álbum em doze anos. É certo que tudo foi escrito por Damon Albarn; mas
não o é menos que Womack é o exemplo perfeito de que como o intérprete é o
genuíno autor da canção soul.
Ricardo Saló
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