Lema

40 Anos a Desfazer Opinião

sábado, 5 de julho de 2014

A Cereja do Topo

Miles Davis - A Surrey With A Fringe On Top
A Mãe de Todas As Cerejas. Nem 'surrey' é um bolo, nem 'fringe' é uma cereja. Mas por que razão ambos formam um conjunto tão suculento, do qual emana tão intenso sabor como o do fruto que aqui virá encimar algumas peças saídas da nossa confeitaria? Miles: diz-nos a verdade! Voltaste a fazer das tuas?

Diamantes

Amy Winehouse - 'Round Midnight
Quando ouvimos um clássico e o comentário que nos ocorre é "já ouvi isto em qualquer lado", quer dizer que estamos na presença de alguém muito especial -sobretudo porque sobredotado na difícil arte da transfiguração.
Os diamantes são eternos? Não tenho ideia formada sobre o assunto. Mas este é.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Outro Imenso Adeus

Adeus, Bobby. E, sobretudo, obrigado. Pela música e pela integridade. Quando o fiz pela última vez, já o instinto me segredava que talvez fosse a última crítica que escrevia sobre um disco teu. Sentia-se próxima -vá-se lá saber porquê- a hora de ser a tua vez de partir para a Lua. Descansa em Paz. Nós, que nela raramente vivemos, temos outro bem que nos insufla alento e coragem para prosseguir. Que nos dá vida: a tua música. Boa viagem (a gente toma conta disto).

Por muito extraordinário que pareça, a última vez que sobre ele escrevi foi -aqui, neste mesmo blogue- no dia da sua morte, sem que soubesse da triste nova. Remonta a 2012, este meu penúltimo texto sobre Bobby Womack, cantor soul norte-americano (e autor do primeiro êxito dos Rolling Stones) falecido em 27 de Junho de 2014:


BOBBY WOMACK: The Bravest Man In the Universe

Nenhum exagero no título. James Brown ficou como the hardest working man in the show-business, graças a uma produção demencial (até uma paragem do autocarro -a meio de exaustivas digressões- era pretexto para uma ‘visitinha’ ao estúdio local). Agora, e antes que se faça tarde, convém notar como o autor do primeiro êxito dos Rolling Stones (‘It’s All Over Now’, 1964) já vai no 27º álbum, sem que alguma vez tenha feito a menor concessão. Na verdade, se James Brown teve que sentir na pele o melindre da desqualificação implícita na passagem de soul brother no.1 para sold brother no.1 nos conturbados dias de Nixon/Watergate, o mais célebre membro do clã Womack começou por avaliar a temperatura da alma num trivial “Fly Me To The Moon” (1968) e logo se decidiu por um mergulho sem regresso até às regiões mais recônditas da condição humana em “My Prescription” (1969) e “Communication” (1971). Já nada de condenável teria feito para manchar tão nobre imagem se o novo disco respeitasse o padrão-médio de interesse estético de (outro) meio-século de carreira. Mas que regresse mediante uma manifestação mais moderna, fresca e urgente que o facto comum da nata neo-soul, que as linhas com que se cose sugiram a base de uma radical versão ‘nortista’ da mesma redescoberta da necessidade de introspecção da Gal Costa de “Recanto” e que seja este o momento mais arrojado de uma empolgante escrita criativa que não atingia ‘tais alturas’ desde o duplo prodígio “The Poet/The Poet II” (1981/84), eis o conjunto de circunstâncias onde recolhe pleno sentido o título deste primeiro álbum em doze anos. É certo que tudo foi escrito por Damon Albarn; mas não o é menos que Womack é o exemplo perfeito de que como o intérprete é o genuíno autor da canção soul.
Ricardo Saló
 

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Das Maçãs e Das Trufas

O Tempo das Cerejas
O ditado é sabido de todos. Alguém, contudo, terá pensado nas consequências, a longo prazo, da ingestão diária de uma maçã (sem esquecer a trufa)? Será que o médico permanecerá por outras freguesias?
Há um tempo para tudo. A oferta tem sido em demasiado larga escala para aquilo que o organismo comum (a começar pelo do próprio) se revela capaz de absorver na sua plenitude vitamínica.
Vamos, por conseguinte, entrar numa nova fase. Pensada para o pleno desfrute de tudo quanto por aqui tem passado; mas também para a regular manifestação, sempre que um bem essencial -de hoje ou de antanho- venha, de pleno direito, fazer as vezes da cereja que cada uma das tartes esmeradamente confeccionadas e melhor degustadas talvez mereça ter no topo. Que permaneça, por isso, declarado o 'alerta laranja'.
E que dizeis a uma trufa com eterno sabor de maçã, pela qual -ainda para mais- passa a essência das palavras que quis transmitir a quem não merece menos?

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Uma Maçã Por Dia...

The Stepkids - Wanderers (EP)
Não vale a pena disfarçar ou atirar a culpa para os 'aliens' do costume. A maçã era de tal modo apetecível que o bicho (suprema autoridade na matéria) chegou lá primeiro e nem o caroço deixou. Resumindo: coisas estranhas se passam na Califórnia. E que um grupo se junte para gravar o electro-soul-funk que o Prince mais ousado teria feito depois de assistir a um filme de 'sci-fi' dos 'fifties' é, por certo, uma delas. Que tudo tenha ocorrido sem qualquer intuito de tornar público o desenlace da sessão é outra. E que o disco de três faixas tenha acabado por ser editado, porque um dj o tocou por engano e, de imediato, se viu acossado por uma impaciente multidão, é a última. Apesar de algo sugestivo, o cartão de visita oriundo de registos anteriores -já interessantes, se bem que talvez ainda localizáveis na nossa galáxia- não será, por isso, mais que uma pálida amostra daquilo de que esta gente é, actualmente, capaz.

Uma Trufa Por Dia...

Gabor Szabo & Bobby Womack - High Contrast
Dois mestres da guitarra. Não da tendência "vejam do que sou capaz" mas da difícil arte de partilhar pelos demais o prazer de tocar. Um, como uma plêiade de talentos do cinema ao futebol, não gostou dos novos ares da Hungria (1956) e instalou-se na Califórnia. O outro, com seu irmão Cecil, e sob o nome de The Valentinos, tinha escrito e gravado o primeiro êxito dos Rolling Stones, "It's All Over Now". O primeiro insinuou-se nos meandros do jazz e havia de deixar fortes marcas no cruzamento deste com o emergente psicadelismo. O segundo apenas quis saber do cruzamento de voz, alma e guitarra, sempre segundo as suas próprias regras, e em tempo de 'linhas de montagem'. Um dia, tomando consciência de que o idioma de cada um à guitarra apenas diferia no sotaque, entraram em diálogo. De vez em quando, a memória desse dia de 1971 volta a ganhar vida. Porque foi ela a sua matéria-prima. E a riqueza do desenlace pesou, sempre, mais que a sua filiação.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Uma Maçã Por Dia...

Quantic - Magnetica
Não havendo nada de, genuinamente, novo a dizer sobre um projecto que parece ter descoberto a sua estabilidade estética, vale a pena referir como um passado repartido entre a especulação breakbeat e o soul-jazz começa a incorporar-se nesta fase da carreira de Will Holland marcada pela sua fixação nas Antilhas. Quer isto dizer que se poderá estar a caminhar para um estádio superior desse processo de amadurecimento da figura do autor: não só pela recuperação da voz (outrora marcante) de Alice Russell como por uma abertura aos ventos, directamente, oriundos de África, menos explícito em registos anteriores. Com a verve criativa que se lhe conhece, ainda alguma surpresa poderá vir destes lados.