Lema

40 Anos a Desfazer Opinião

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Das Maçãs e Das Trufas

O Tempo das Cerejas
O ditado é sabido de todos. Alguém, contudo, terá pensado nas consequências, a longo prazo, da ingestão diária de uma maçã (sem esquecer a trufa)? Será que o médico permanecerá por outras freguesias?
Há um tempo para tudo. A oferta tem sido em demasiado larga escala para aquilo que o organismo comum (a começar pelo do próprio) se revela capaz de absorver na sua plenitude vitamínica.
Vamos, por conseguinte, entrar numa nova fase. Pensada para o pleno desfrute de tudo quanto por aqui tem passado; mas também para a regular manifestação, sempre que um bem essencial -de hoje ou de antanho- venha, de pleno direito, fazer as vezes da cereja que cada uma das tartes esmeradamente confeccionadas e melhor degustadas talvez mereça ter no topo. Que permaneça, por isso, declarado o 'alerta laranja'.
E que dizeis a uma trufa com eterno sabor de maçã, pela qual -ainda para mais- passa a essência das palavras que quis transmitir a quem não merece menos?

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Uma Maçã Por Dia...

The Stepkids - Wanderers (EP)
Não vale a pena disfarçar ou atirar a culpa para os 'aliens' do costume. A maçã era de tal modo apetecível que o bicho (suprema autoridade na matéria) chegou lá primeiro e nem o caroço deixou. Resumindo: coisas estranhas se passam na Califórnia. E que um grupo se junte para gravar o electro-soul-funk que o Prince mais ousado teria feito depois de assistir a um filme de 'sci-fi' dos 'fifties' é, por certo, uma delas. Que tudo tenha ocorrido sem qualquer intuito de tornar público o desenlace da sessão é outra. E que o disco de três faixas tenha acabado por ser editado, porque um dj o tocou por engano e, de imediato, se viu acossado por uma impaciente multidão, é a última. Apesar de algo sugestivo, o cartão de visita oriundo de registos anteriores -já interessantes, se bem que talvez ainda localizáveis na nossa galáxia- não será, por isso, mais que uma pálida amostra daquilo de que esta gente é, actualmente, capaz.

Uma Trufa Por Dia...

Gabor Szabo & Bobby Womack - High Contrast
Dois mestres da guitarra. Não da tendência "vejam do que sou capaz" mas da difícil arte de partilhar pelos demais o prazer de tocar. Um, como uma plêiade de talentos do cinema ao futebol, não gostou dos novos ares da Hungria (1956) e instalou-se na Califórnia. O outro, com seu irmão Cecil, e sob o nome de The Valentinos, tinha escrito e gravado o primeiro êxito dos Rolling Stones, "It's All Over Now". O primeiro insinuou-se nos meandros do jazz e havia de deixar fortes marcas no cruzamento deste com o emergente psicadelismo. O segundo apenas quis saber do cruzamento de voz, alma e guitarra, sempre segundo as suas próprias regras, e em tempo de 'linhas de montagem'. Um dia, tomando consciência de que o idioma de cada um à guitarra apenas diferia no sotaque, entraram em diálogo. De vez em quando, a memória desse dia de 1971 volta a ganhar vida. Porque foi ela a sua matéria-prima. E a riqueza do desenlace pesou, sempre, mais que a sua filiação.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Uma Maçã Por Dia...

Quantic - Magnetica
Não havendo nada de, genuinamente, novo a dizer sobre um projecto que parece ter descoberto a sua estabilidade estética, vale a pena referir como um passado repartido entre a especulação breakbeat e o soul-jazz começa a incorporar-se nesta fase da carreira de Will Holland marcada pela sua fixação nas Antilhas. Quer isto dizer que se poderá estar a caminhar para um estádio superior desse processo de amadurecimento da figura do autor: não só pela recuperação da voz (outrora marcante) de Alice Russell como por uma abertura aos ventos, directamente, oriundos de África, menos explícito em registos anteriores. Com a verve criativa que se lhe conhece, ainda alguma surpresa poderá vir destes lados.

Uma Trufa Por Dia...

Minoru Muraoka - Bamboo
Depois disto, é bom que qualquer pessoa pense muito bem, antes de dizer que ouviu um disco que o surpreendeu. Ainda que em 'theremin' e 'jews harp' pudesse soar mais estranho, ninguém deverá ficar desiludido quando ouvir "Take Five" em flauta de bambu e harpa. Sobretudo porque essa é, apenas, a porta de entrada para o mundo deste virtuoso japonês, ocupado que estava em trazer até si a música 'radio-friendly' de 1970. Qualquer coisa que, na altura, o melómano-no-seu-perfeito-juízo teria ignorado pelo que os originais já lhe davam que fazer -o mesmo que tropeçar na música do "White Album", por Ramsey Lewis, numa adaptação que só hoje adquire sentido. Outro tanto sucede com esta simbiose perfeita de instrumentos da tradição nipónica e célebres 'peças de artilharia' ocidentais (órgão Hammond, sintetizadores e percussão), de cujas manobras sobressaem formas inovadoras de expressão e, sobretudo, um sentido do groove de tal modo apurado que chega a sugerir um disco de hip-hop-jazz nascido antes daqueles que lhe deram expressão. Inventivo e brilhante.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Uma Maçã Por Dia...

Lone - Reality Testing
Matt Cutler, produtor inglês, não será o mais ilustre exemplo em matéria de criatividade. Mas o presumível facto de ter dispendido dois terços da vida no interior de discotecas terá desenvolvido neste habitante de Manchester uma destreza digna de registo na frente narrativa. Quer dizer: não sendo a matéria de base 'the stuff dreams are made of'', já o seu conceito de 'mise-en-scène' dá azo a uma narrativa, por vezes, acidentada e a um ou outro desenlace, deveras, inesperado. Um caso a seguir de perto (tanto mais que Portugal foi o país escolhido para um sumptuoso clip que tem circulado pelo FB).

Uma Trufa Por Dia,,,

The Human League -Dare
Por vezes, uma boa dose de atrevimento é necessária para seguir pelo caminho mais simples. Foi assim que, depois da rápida conquista do estatuto de grupo de culto da vanguarda 'cold-wave' ("Reproduction" e "Travelogue"), o simples desmembramento da formação original do grupo de Sheffield representou o alento decisivo para que Philip Oakey dele fizesse o veículo de uma incursão, despudoradamente, mainstream. Atrevimento redobrado, se pensarmos que a 'linha da frente' do pós-punk vivia o momento mais frenético e criativo da sua existência. Tudo ao contrário e fora com ele, portanto? Nem pensar nisso. Com um conceptualismo pop de inexcedível rigor e um conteúdo a transbordar de pérolas ("Open Your Heart", "Seconds", "Love Action", "The Things That Dreams Are Made Of" e, até, a versão do tema de "Get Carter"), Oakey e companhia andaram tão perto do disco pop perfeito como Zombies, Kinks, Animals, Beatles e Stones nos anos 60. Que, hoje, volte a fazer sentido, dirá mais das suas virtudes que das limitações do presente.