Lema

40 Anos a Desfazer Opinião

terça-feira, 24 de junho de 2014

Uma Maçã Por Dia...

Mr. Scruff - Friendly Bacteria
Mudar, em si, não constitui uma virtude. Mas pode ser um acto de coragem. Sobretudo quando uma extensa carreira gera uma legião de seguidores para os quais paixão e expectativa já são conceitos de difícil separação. Tom Waits não deve ter tido tempos fáceis quando se aventurou pelos terrenos bravios de "Swordfishtrombones" e deixou mais de metade da sua 'corte' petrificada. Andy Carthy não foi tão longe; mas reconheça-se que pôr mãos à obra como se se tivesse esquecido do lugar onde viu o sampler pela última vez não é façanha de pouca monta. Ainda que o peso da electrónica-pura-e-dura possa não ser o cartão de visita ideal para a maioria, a verdade é que desse aparente abuso emana o elemento de unidade estética daquele que será o seu mais feliz registo soul-funk-jazz desde o lendário "Keep It Unreal". Não falta quem o situe entre o George Clinton pós-Parliament e os Kraftwerk 'vintage', com um 'cheirino' do Miles 'eléctrico' de permeio. Mais importante, o repertório parece uns furos acima da média. E, se assim for, a mudança valeu a pena; pela forma como a remoção do vício da linguagem terá contribuído para a sua regeneração.
 

Uma Trufa Por Dia,,,

The Stereo MC's - Connected
Para quem não esteja certo do que é um marco, a resposta não podia ser mais eloquente. Na verdade, trata-se de um marco tão... marcante que os próprios autores do feito permaneceram durante uma década em silêncio. Procederam de forma sensata: o que quer que dissessem, ou fizessem, seria, sempre, uma desilusão. Porque este trio branco dos arredores de Londres (que já começara bem, com dois álbuns aos quais ficou a dever um instantâneo lugar no mapa) definiu um novo paradigma para a canção pop em território hip-hop. Para tanto, e colocando-se um passo à frente dos Massive Attack, reinventou o prazer (e, mesmo, o primado) da melodia em situação de sintonia perfeita com uma abordagem lúdica do registo 'rap', enquanto tudo o mais investia no poderio sonoro do (então) ainda emergente 'groove' -tão forte como insinuante na sua ligeireza de movimentos. Obs.: não sendo certo que se esteja na presença de uma reedição em larga escala, será desnecessário lembrar que não se trata da primeira... Logo, que ninguém atire a 'toalha ao tapete'.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Uma Maçã Por Dia...

Meridian Brothers - Salvadora Robot
Depois de "Desesperanza", de 2012, cedo chega a manifestação deste ano. E, com ela, a confirmação da atitude iconoclasta da música do esquadrão de Bogotá. Quer dizer que volta a não se tratar de 'modernizar' a tradição local mas de exprimir uma visão singular da contemporaneidade étnica/tecnológica, com natural epicentro na sua identidade cultural. Talvez resida nesta e noutras manifestações de liberdade criativa a mais auspiciosa porta de saída da redoma de uma World Music que se coloca demasiado ao sabor dos ventos da conjuntura, só porque a Aldeia se diz Global. Longe de constituir um 'must' estético, até porque algo deficitário no capítulo da invenção, este novo álbum poderá aquirir relevo pela afirmação categórica dessa diferente perspectiva.

Uma Trufa Por Dia...

Vários - Wigan Casino 40th Anniversary Album
"Nature always finds a way" -dizia Jeff Goldblum, em "Jurassic Park". E, com a música, tem sido a mesma coisa: não há, a natureza humana inventa. Caso recorrente ao longo da história é o da saturação que se apodera dos utentes dos salões de dança quando da hegemonia de uma corrente musical. Para estes, sobretudo os amantes da surpresa, não pode haver coisa pior que saber que a faixa do costume vai tocar a seguir à outra faixa do costume à hora do costume. É nestas alturas que os mais dotados de espírito de iniciativa passam à acção e se lançam na experiência. Há 40 anos, num velho e convencional 'ballroom' do Norte de Inglaterra (The Empress), um punhado de bravos reuniu os discos que ninguém queria tocar, porque não 'encaixavam' nos modelos em 'alta' no mercado, e começou a organizar sessões dançantes com esse património de 'série B', o qual retinha a essência da música de dança descomprometida. A coisa não só pegou -ao ponto de ficar conhecida como Northern Soul- como alastrou a todo o País e, logo, ao Planeta -sobretudo quando o Wigan Casino surgiu, na imprensa, com cotação superior ao Studio 54, de Nova Iorque. A febre continua e -pela primeira vez- não falta matéria para que se compreenda de que forma a música de dança -sem ligar a modas- recuperou uma pureza original que se julgava perdida.

 

sábado, 21 de junho de 2014

O Dia Anterior

1. It Came From Outer Space
Visa esta edição-extra ajudar a preparar os portugueses (já inclui as portuguesas) para o desenlace do jogo de futebol de amanhã com a selecção dos Estados Unidos da América. Sobretudo, em caso de derrota. O maior problema do português comum consiste em não saber ganhar -tem, sempre, que escarnecer do vencido; mas, de cada vez que perde, consigo ouvir, distintamente, a voz de Julie London a entoar "Cry Me A River". E é para a possibilidade de ocorrência deste cenário que pretendo mostrar-vos que há coisas bem mais penosas na vida que perder um jogo com um país que sempre fez de nós o que quis na política e já andou perto disso no futebol. Caso suceda o pior, e como dizia um celebrado 'polícia de costumes', "amanhã será outro dia". Agora, oiçam ('o vento mudou/e ela voltou'...).

O Dia Anterior

2. Pesadelo Na Rua Dos Ulmeiros
Estão a ver? E querem ver melhor, ainda? O que seria uma derrota no futebol comparada com a sujeição a tamanho suplício (embora deva dizer-se que, por tudo quanto fez pelos seus 'iguais', tenha sido ela a genuína inventora do célebre "saiba que no coração de um desafinado também bate um coração").

O Dia Anterior

3. O perigo espreita ao virar da esquina.
E, com este exemplo final ('final', porque capaz de pôr termo à melomania de qualquer um -incluindo os sobreviventes de "Made In Japan", dos Deep Purple-), espero 'ter levado a carta a Garcia'. Ou seja: deixem lá isso, porque há coisas bem mais terríveis que perder um jogo de bola. Nada de celebrações, como se a República tivesse sido implantada de novo; e nada de luto carregado (embora, já se saiba que a culpa seria, sempre, do árbitro) porque a vida continua e a tristeza é um bem demasiado precioso para ser gasto com as 'tragédias' de uma 'dúzia de gajos' em calções. 'Be careful out there, in here and wherever you nose steps in'. Auguri!