Lema

40 Anos a Desfazer Opinião

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Uma Trufa Por Dia...

Vários - Wigan Casino 40th Anniversary Album
"Nature always finds a way" -dizia Jeff Goldblum, em "Jurassic Park". E, com a música, tem sido a mesma coisa: não há, a natureza humana inventa. Caso recorrente ao longo da história é o da saturação que se apodera dos utentes dos salões de dança quando da hegemonia de uma corrente musical. Para estes, sobretudo os amantes da surpresa, não pode haver coisa pior que saber que a faixa do costume vai tocar a seguir à outra faixa do costume à hora do costume. É nestas alturas que os mais dotados de espírito de iniciativa passam à acção e se lançam na experiência. Há 40 anos, num velho e convencional 'ballroom' do Norte de Inglaterra (The Empress), um punhado de bravos reuniu os discos que ninguém queria tocar, porque não 'encaixavam' nos modelos em 'alta' no mercado, e começou a organizar sessões dançantes com esse património de 'série B', o qual retinha a essência da música de dança descomprometida. A coisa não só pegou -ao ponto de ficar conhecida como Northern Soul- como alastrou a todo o País e, logo, ao Planeta -sobretudo quando o Wigan Casino surgiu, na imprensa, com cotação superior ao Studio 54, de Nova Iorque. A febre continua e -pela primeira vez- não falta matéria para que se compreenda de que forma a música de dança -sem ligar a modas- recuperou uma pureza original que se julgava perdida.

 

sábado, 21 de junho de 2014

O Dia Anterior

1. It Came From Outer Space
Visa esta edição-extra ajudar a preparar os portugueses (já inclui as portuguesas) para o desenlace do jogo de futebol de amanhã com a selecção dos Estados Unidos da América. Sobretudo, em caso de derrota. O maior problema do português comum consiste em não saber ganhar -tem, sempre, que escarnecer do vencido; mas, de cada vez que perde, consigo ouvir, distintamente, a voz de Julie London a entoar "Cry Me A River". E é para a possibilidade de ocorrência deste cenário que pretendo mostrar-vos que há coisas bem mais penosas na vida que perder um jogo com um país que sempre fez de nós o que quis na política e já andou perto disso no futebol. Caso suceda o pior, e como dizia um celebrado 'polícia de costumes', "amanhã será outro dia". Agora, oiçam ('o vento mudou/e ela voltou'...).

O Dia Anterior

2. Pesadelo Na Rua Dos Ulmeiros
Estão a ver? E querem ver melhor, ainda? O que seria uma derrota no futebol comparada com a sujeição a tamanho suplício (embora deva dizer-se que, por tudo quanto fez pelos seus 'iguais', tenha sido ela a genuína inventora do célebre "saiba que no coração de um desafinado também bate um coração").

O Dia Anterior

3. O perigo espreita ao virar da esquina.
E, com este exemplo final ('final', porque capaz de pôr termo à melomania de qualquer um -incluindo os sobreviventes de "Made In Japan", dos Deep Purple-), espero 'ter levado a carta a Garcia'. Ou seja: deixem lá isso, porque há coisas bem mais terríveis que perder um jogo de bola. Nada de celebrações, como se a República tivesse sido implantada de novo; e nada de luto carregado (embora, já se saiba que a culpa seria, sempre, do árbitro) porque a vida continua e a tristeza é um bem demasiado precioso para ser gasto com as 'tragédias' de uma 'dúzia de gajos' em calções. 'Be careful out there, in here and wherever you nose steps in'. Auguri!

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Uma Maçã Por Dia...

José James - While You Were Sleeping
Tão-pouco teria procurado dissimular a sua 'verdade interior' se lhe tivesse chamado "No More Mr. Nice Guy". Porque talvez James tenha sacrificado alguma da clássica "smoothness" em nome de um registo no limiar do escatológico. Prova de coragem e não de cedência à vontade alheia. Sem sacrifício comprometedor de uma unidade estética que sempre colocou na linha da frente da sua 'persona' musical, o autor do magistral "No Beginning No End" expande, ainda um pouco mais, o campo da sua acção e junta, agora, o rock 'ao barulho' -como se soul, jazz, hip-hop e tecno subliminar não representassem, já, uma carga de trabalhos para quem tem na definição da personalidade artística a grande prioridade. De Hendrix a Nirvana, com escala em Neil Young, James dir-se-ia em manobra de aproximação a Ben Harper. Contudo, o controle da produção sonora e da expressão final, onde o toque aveludado continua a fazer a diferença, garantem unidade a um disco que, noutras mãos, não chegaria a tê-la visto.

Uma Trufa Por Dia...

Ivan Lins - Somos Todos Iguais Nesta Noite
Antes da entrada na sua fase dogmática, a chamada MPB foi um aliciante movimento estético pós-tropicalista. Lamentavelmente, a sua plena difusão em Portugal coincidiu, por inteiro, com o período da 'agonia anunciada'. Mas nunca é tarde para descobrir o que permaneceu na semi-obscuridade. Sobretudo agora que a música tem em cada melómano um potencial 'digger'. A fase de ouro da MPB -1972/77, com alguma margem de erro- caracterizava-se por uma empolgante interactividade voz-instrumentos no quadro de uma abertura estilística marcada pela expansão aos mundos do jazz, de África e da América Latina (o conceito de 'americanidade', celebrado por Milton). Novos 'pontos de apoio' para uma linguagem que já se banhava na pop herdada do tropicalismo sem nunca esquecer o património nacional. Milton Nascimento, Taiguara, Arthur Verocai, Egberto Gismonti (discografia brasileira), Gal Costa, Caetano Veloso, Lô Borges, Luiz Gonzaga Jr., Hermeto Pascoal, João Bosco e Ivan Lins são alguns dos nomes aos quais se ficou a dever, pelo menos, um disco magistral. Embora haja 4 ou 5 álbuns notáveis para recuperar do autor de "Madalena" (por meio da qual Elis Regina deu a conhecê-lo ao Brasil), este álbum agora reeditado talvez correponda ao momento em que as virtudes do movimento convergiram, em pleno, para a sua música.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Uma Maça Por Dia...

Gil Scott-Heron - Nothing New
Por razões bem conhecidas, o título não podia ser mais desgraçadamente verdadeiro. E, por se tratar de quem se trata(va), a música, dificilmente, podia ser mais interessante. Como se sabe, Gil não faleceu de súbito como Hendrix. E, por isso, ao contrário deste, não tinha 3 álbuns prontos para editar no mesmo ano. Na realidade, nada de novo tinha em fase de produção. Daí que esse 'nada de novo' do título se refira, em concreto, a um conjunto de informais sessões 'unplugged', ao longo das quais o Homem de "Winter In America" terá procurado manter alguma actividade para retardar -desta vez- o seu próprio Inverno. No essencial, a divagação por um cancioneiro de ouro maciço, numa sequência de gravações para voz e piano remontando ao período 2005-2009. As quais foram mantidas na sua forma original, porquanto não tinham como destino um mercado que, agora, delas se serve para manter viva uma (já) impossível presença física.