Tão-pouco teria procurado dissimular a sua 'verdade interior' se lhe tivesse chamado "No More Mr. Nice Guy". Porque talvez James tenha sacrificado alguma da clássica "smoothness" em nome de um registo no limiar do escatológico. Prova de coragem e não de cedência à vontade alheia. Sem sacrifício comprometedor de uma unidade estética que sempre colocou na linha da frente da sua 'persona' musical, o autor do magistral "No Beginning No End" expande, ainda um pouco mais, o campo da sua acção e junta, agora, o rock 'ao barulho' -como se soul, jazz, hip-hop e tecno subliminar não representassem, já, uma carga de trabalhos para quem tem na definição da personalidade artística a grande prioridade. De Hendrix a Nirvana, com escala em Neil Young, James dir-se-ia em manobra de aproximação a Ben Harper. Contudo, o controle da produção sonora e da expressão final, onde o toque aveludado continua a fazer a diferença, garantem unidade a um disco que, noutras mãos, não chegaria a tê-la visto.
sexta-feira, 20 de junho de 2014
Uma Maçã Por Dia...
José James - While You Were Sleeping
Tão-pouco teria procurado dissimular a sua 'verdade interior' se lhe tivesse chamado "No More Mr. Nice Guy". Porque talvez James tenha sacrificado alguma da clássica "smoothness" em nome de um registo no limiar do escatológico. Prova de coragem e não de cedência à vontade alheia. Sem sacrifício comprometedor de uma unidade estética que sempre colocou na linha da frente da sua 'persona' musical, o autor do magistral "No Beginning No End" expande, ainda um pouco mais, o campo da sua acção e junta, agora, o rock 'ao barulho' -como se soul, jazz, hip-hop e tecno subliminar não representassem, já, uma carga de trabalhos para quem tem na definição da personalidade artística a grande prioridade. De Hendrix a Nirvana, com escala em Neil Young, James dir-se-ia em manobra de aproximação a Ben Harper. Contudo, o controle da produção sonora e da expressão final, onde o toque aveludado continua a fazer a diferença, garantem unidade a um disco que, noutras mãos, não chegaria a tê-la visto.
Tão-pouco teria procurado dissimular a sua 'verdade interior' se lhe tivesse chamado "No More Mr. Nice Guy". Porque talvez James tenha sacrificado alguma da clássica "smoothness" em nome de um registo no limiar do escatológico. Prova de coragem e não de cedência à vontade alheia. Sem sacrifício comprometedor de uma unidade estética que sempre colocou na linha da frente da sua 'persona' musical, o autor do magistral "No Beginning No End" expande, ainda um pouco mais, o campo da sua acção e junta, agora, o rock 'ao barulho' -como se soul, jazz, hip-hop e tecno subliminar não representassem, já, uma carga de trabalhos para quem tem na definição da personalidade artística a grande prioridade. De Hendrix a Nirvana, com escala em Neil Young, James dir-se-ia em manobra de aproximação a Ben Harper. Contudo, o controle da produção sonora e da expressão final, onde o toque aveludado continua a fazer a diferença, garantem unidade a um disco que, noutras mãos, não chegaria a tê-la visto.
Uma Trufa Por Dia...
Ivan Lins - Somos Todos Iguais Nesta Noite
Antes da entrada na sua fase dogmática, a chamada MPB foi um aliciante movimento estético pós-tropicalista. Lamentavelmente, a sua plena difusão em Portugal coincidiu, por inteiro, com o período da 'agonia anunciada'. Mas nunca é tarde para descobrir o que permaneceu na semi-obscuridade. Sobretudo agora que a música tem em cada melómano um potencial 'digger'. A fase de ouro da MPB -1972/77, com alguma margem de erro- caracterizava-se por uma empolgante interactividade voz-instrumentos no quadro de uma abertura estilística marcada pela expansão aos mundos do jazz, de África e da América Latina (o conceito de 'americanidade', celebrado por Milton). Novos 'pontos de apoio' para uma linguagem que já se banhava na pop herdada do tropicalismo sem nunca esquecer o património nacional. Milton Nascimento, Taiguara, Arthur Verocai, Egberto Gismonti (discografia brasileira), Gal Costa, Caetano Veloso, Lô Borges, Luiz Gonzaga Jr., Hermeto Pascoal, João Bosco e Ivan Lins são alguns dos nomes aos quais se ficou a dever, pelo menos, um disco magistral. Embora haja 4 ou 5 álbuns notáveis para recuperar do autor de "Madalena" (por meio da qual Elis Regina deu a conhecê-lo ao Brasil), este álbum agora reeditado talvez correponda ao momento em que as virtudes do movimento convergiram, em pleno, para a sua música.
Antes da entrada na sua fase dogmática, a chamada MPB foi um aliciante movimento estético pós-tropicalista. Lamentavelmente, a sua plena difusão em Portugal coincidiu, por inteiro, com o período da 'agonia anunciada'. Mas nunca é tarde para descobrir o que permaneceu na semi-obscuridade. Sobretudo agora que a música tem em cada melómano um potencial 'digger'. A fase de ouro da MPB -1972/77, com alguma margem de erro- caracterizava-se por uma empolgante interactividade voz-instrumentos no quadro de uma abertura estilística marcada pela expansão aos mundos do jazz, de África e da América Latina (o conceito de 'americanidade', celebrado por Milton). Novos 'pontos de apoio' para uma linguagem que já se banhava na pop herdada do tropicalismo sem nunca esquecer o património nacional. Milton Nascimento, Taiguara, Arthur Verocai, Egberto Gismonti (discografia brasileira), Gal Costa, Caetano Veloso, Lô Borges, Luiz Gonzaga Jr., Hermeto Pascoal, João Bosco e Ivan Lins são alguns dos nomes aos quais se ficou a dever, pelo menos, um disco magistral. Embora haja 4 ou 5 álbuns notáveis para recuperar do autor de "Madalena" (por meio da qual Elis Regina deu a conhecê-lo ao Brasil), este álbum agora reeditado talvez correponda ao momento em que as virtudes do movimento convergiram, em pleno, para a sua música.
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Uma Maça Por Dia...
Gil Scott-Heron - Nothing New
Por razões bem conhecidas, o título não podia ser mais desgraçadamente verdadeiro. E, por se tratar de quem se trata(va), a música, dificilmente, podia ser mais interessante. Como se sabe, Gil não faleceu de súbito como Hendrix. E, por isso, ao contrário deste, não tinha 3 álbuns prontos para editar no mesmo ano. Na realidade, nada de novo tinha em fase de produção. Daí que esse 'nada de novo' do título se refira, em concreto, a um conjunto de informais sessões 'unplugged', ao longo das quais o Homem de "Winter In America" terá procurado manter alguma actividade para retardar -desta vez- o seu próprio Inverno. No essencial, a divagação por um cancioneiro de ouro maciço, numa sequência de gravações para voz e piano remontando ao período 2005-2009. As quais foram mantidas na sua forma original, porquanto não tinham como destino um mercado que, agora, delas se serve para manter viva uma (já) impossível presença física.
Por razões bem conhecidas, o título não podia ser mais desgraçadamente verdadeiro. E, por se tratar de quem se trata(va), a música, dificilmente, podia ser mais interessante. Como se sabe, Gil não faleceu de súbito como Hendrix. E, por isso, ao contrário deste, não tinha 3 álbuns prontos para editar no mesmo ano. Na realidade, nada de novo tinha em fase de produção. Daí que esse 'nada de novo' do título se refira, em concreto, a um conjunto de informais sessões 'unplugged', ao longo das quais o Homem de "Winter In America" terá procurado manter alguma actividade para retardar -desta vez- o seu próprio Inverno. No essencial, a divagação por um cancioneiro de ouro maciço, numa sequência de gravações para voz e piano remontando ao período 2005-2009. As quais foram mantidas na sua forma original, porquanto não tinham como destino um mercado que, agora, delas se serve para manter viva uma (já) impossível presença física.
Uma Trufa Por Dia...
Hank Mobley - Soul Station
O jazz, sem corantes nem conservantes, no seu melhor. Moderno, clássico e urgente de um só golpe. Sem segredos para desvendar, nem linguagem cifrada para descodificar. Apenas, 'straight jazz': filho dos blues, neto do swing, irmão do hardbop e primo direito da soul. Mas sobretudo 'godfather' de toda a música que alimenta a suprema ambição de converter em sinónimos riqueza interior e simplicidade de expressão. Tudo parece fácil no sopro fluente de um grande saxofonista eternamente por descobrir e que -não querendo saber de ousadias, se tal pusesse em causa a música como fonte de bem-estar- não ficou um milímetro atrás de John Coltrane, Ornette Coleman e Roland Kirk na fluência de um discurso inventivo como poucos. O qual recebe de Wynton Kelly (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Art Blakey (bateria) o suplemento que ainda o separava da perfeição. Além de a sua obra máxima, outra peça-chave que regressa ao mercado.
O jazz, sem corantes nem conservantes, no seu melhor. Moderno, clássico e urgente de um só golpe. Sem segredos para desvendar, nem linguagem cifrada para descodificar. Apenas, 'straight jazz': filho dos blues, neto do swing, irmão do hardbop e primo direito da soul. Mas sobretudo 'godfather' de toda a música que alimenta a suprema ambição de converter em sinónimos riqueza interior e simplicidade de expressão. Tudo parece fácil no sopro fluente de um grande saxofonista eternamente por descobrir e que -não querendo saber de ousadias, se tal pusesse em causa a música como fonte de bem-estar- não ficou um milímetro atrás de John Coltrane, Ornette Coleman e Roland Kirk na fluência de um discurso inventivo como poucos. O qual recebe de Wynton Kelly (piano), Paul Chambers (contrabaixo) e Art Blakey (bateria) o suplemento que ainda o separava da perfeição. Além de a sua obra máxima, outra peça-chave que regressa ao mercado.
terça-feira, 17 de junho de 2014
Uma Maçã Por Dia...
Fatima - Yellow Memories
Será pouco provável que algum disco, em 2014, venha a exibir superior grau de desenvoltura estética que aquele que assinala a 'estreia oficial' desta notável intérprete de... 'meta-soul'. Porque só o ouvinte desprevenido ou distraído se julgará (e, mesmo assim, por um fugaz instante) na presença de um episódio de (in)disciplina face aos cânones soul-funk-hip-hop-jazz. Na verdade, há, aqui, um -quase involuntário- conceptualismo estético que resulta da plena assimilação de todas as linguagens populares (centrado no, mas não-restrito ao, universo afro-americano), que serve, apenas, de base à sua acção. Já esta escapa a qualquer catalogação, pela impossibilidade absoluta de se afirmar onde terminam as marcas de um idioma e começam as de outro, de tal forma se apresenta apurado o processo de integração dos múltiplos estímulos da contemporaneidade numa nova entidade autónoma. O resto -ou seja, todo o álbum- é mais-valia. Talvez a forma mais evoluida de música soul dos últimos 20 anos tenha acabado de sair do estúdio californiano onde este sueca negra, residente em Londres, foi levada pela sua (nalguns aspectos, forçada) irrequietude existencial. E, porque as suas 'intentions are good', não será ela, por certo, a lançar este aviso à navegação, por onde passa a expressão da sua impensável grandeza: 'Jill Scott, Erykah Badu e Esperanza Spalding, time to work harder!'
Será pouco provável que algum disco, em 2014, venha a exibir superior grau de desenvoltura estética que aquele que assinala a 'estreia oficial' desta notável intérprete de... 'meta-soul'. Porque só o ouvinte desprevenido ou distraído se julgará (e, mesmo assim, por um fugaz instante) na presença de um episódio de (in)disciplina face aos cânones soul-funk-hip-hop-jazz. Na verdade, há, aqui, um -quase involuntário- conceptualismo estético que resulta da plena assimilação de todas as linguagens populares (centrado no, mas não-restrito ao, universo afro-americano), que serve, apenas, de base à sua acção. Já esta escapa a qualquer catalogação, pela impossibilidade absoluta de se afirmar onde terminam as marcas de um idioma e começam as de outro, de tal forma se apresenta apurado o processo de integração dos múltiplos estímulos da contemporaneidade numa nova entidade autónoma. O resto -ou seja, todo o álbum- é mais-valia. Talvez a forma mais evoluida de música soul dos últimos 20 anos tenha acabado de sair do estúdio californiano onde este sueca negra, residente em Londres, foi levada pela sua (nalguns aspectos, forçada) irrequietude existencial. E, porque as suas 'intentions are good', não será ela, por certo, a lançar este aviso à navegação, por onde passa a expressão da sua impensável grandeza: 'Jill Scott, Erykah Badu e Esperanza Spalding, time to work harder!'
Uma Trufa Por Dia...
Grant Green - Idle Moments
A História do jazz regista virtuosos da guitarra tão eméritos como Charlie Christian, Wes Montgomery, John McLaughlin, Charlie Hunter e Derek Bailey. E, no entanto, talvez ninguém se revele à altura -no seu incomparável misto de desenvoltura técnica, escrita criativa, sentido do 'groove' e capacidade de comunicação (e contágio)- de Grant Green. Não se deve, por isso, a um acaso que a mesma crítica ortodoxa que fez de conta que o 'soul-jazz' não existia sempre tenha tido uma palavra de grande apreço para tão extraordinário músico. Que soube, como ninguém, combinar os traços distintivos do jazz moderno com a vocação original desta linguagem: fonte de emoções fortes de resposta imediata do ouvinte. Grant Green -quando se fala da guitarra no jazz- é 'the real thing'. E este álbum de 1964, (com Joe Henderson, Bobby Hutcherson e outros), agora reeditado, é a sua 'finest hour': a arte de dar expressão tranquila a espíritos em maré de desinquietação.
A História do jazz regista virtuosos da guitarra tão eméritos como Charlie Christian, Wes Montgomery, John McLaughlin, Charlie Hunter e Derek Bailey. E, no entanto, talvez ninguém se revele à altura -no seu incomparável misto de desenvoltura técnica, escrita criativa, sentido do 'groove' e capacidade de comunicação (e contágio)- de Grant Green. Não se deve, por isso, a um acaso que a mesma crítica ortodoxa que fez de conta que o 'soul-jazz' não existia sempre tenha tido uma palavra de grande apreço para tão extraordinário músico. Que soube, como ninguém, combinar os traços distintivos do jazz moderno com a vocação original desta linguagem: fonte de emoções fortes de resposta imediata do ouvinte. Grant Green -quando se fala da guitarra no jazz- é 'the real thing'. E este álbum de 1964, (com Joe Henderson, Bobby Hutcherson e outros), agora reeditado, é a sua 'finest hour': a arte de dar expressão tranquila a espíritos em maré de desinquietação.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Uma Maçã Por Dia...
Joana Machado - Blame It On My Youth
Sim, 'we definitely can!'. Joana Machado não está para além do Bem e do Mal; mas está, por certo, para além do jazz. Sem qualquer desprimor para os demais briosos activistas nacionais, não será exagero considerar que a cantora vinda da Madeira encontra-se para o jazz global como Maria João Pires para Chopin. Não se trata, apenas, de uma questão de destreza técnica na frente interpretativa mas, sobretudo, de uma inefável mais-valia que só é inteligível pela apreensão do categórico primado de um riquíssimo mundo interior sobre a matéria-prima que lhe é fornecida pelo mundo material. Noutro quadrante, pense-se na Joni Mitchell de "Hejira" -disco que não mergulha em nenhum idioma em particular mas, tão-somente, arranca das profundezas a 'forma da alma' da sua autora. Do melhor que já se fez por cá e daquilo de que o jazz -a nível internacional- necessita para sobreviver como forma de expressão plenamente integrada no mundo contemporâneo. Sintoma inequívoco disso reside nos elogios -ainda que fruto de uma feliz relação profissional- que lhe são dirigidos por gente tão ilustre como Buster Williams, Gary Bartz, Steve Coleman e, até,... Herberto Helder.
Sim, 'we definitely can!'. Joana Machado não está para além do Bem e do Mal; mas está, por certo, para além do jazz. Sem qualquer desprimor para os demais briosos activistas nacionais, não será exagero considerar que a cantora vinda da Madeira encontra-se para o jazz global como Maria João Pires para Chopin. Não se trata, apenas, de uma questão de destreza técnica na frente interpretativa mas, sobretudo, de uma inefável mais-valia que só é inteligível pela apreensão do categórico primado de um riquíssimo mundo interior sobre a matéria-prima que lhe é fornecida pelo mundo material. Noutro quadrante, pense-se na Joni Mitchell de "Hejira" -disco que não mergulha em nenhum idioma em particular mas, tão-somente, arranca das profundezas a 'forma da alma' da sua autora. Do melhor que já se fez por cá e daquilo de que o jazz -a nível internacional- necessita para sobreviver como forma de expressão plenamente integrada no mundo contemporâneo. Sintoma inequívoco disso reside nos elogios -ainda que fruto de uma feliz relação profissional- que lhe são dirigidos por gente tão ilustre como Buster Williams, Gary Bartz, Steve Coleman e, até,... Herberto Helder.
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