Lema

40 Anos a Desfazer Opinião

terça-feira, 10 de junho de 2014

Uma Maçã Por Dia...

Acoustic Ladyland - Camouflage
A frase "it's not what you think" não se aplica aqui. Assim como a expressão musical deste álbum de estreia não se aplica à posterior discografia do esquadrão londrino. Na verdade, este quinteto/sexteto integra, hoje, o colectivo F-IRE e cultiva a linguagem actual (referida como punk-jazz) mais próxima do James White/Chance ou do Pop Group 'vintage'. Quanto ao disco em causa, é tudo o que parece. Ou seja: Jimi Hendrix (não só o de "Electric Ladyland") como fonte de inspiração de um conjunto de espíritos clarividentes, para os quais um álbum de homenagem não tem que ser uma colecção de versões e muito menos um exercício de genuflexão. Que uma faixa se intitule "Nagel", óbvio anagrama de "Angel", significa, tão-somente, que esse foi o estímulo de uma acção instrumental, de onde -por muito que imbuída do intento de variação do 'ouro hendrixiano'- resultou uma entidade estética sem qualquer relação com a matéria original. Melhor serviço não se podia ter prestado à memória do mago de Seattle. O registo contemplativo de grande parte da acção deixará muita gente perplexa. Caso para outra evocação: "primeiro, estranha-se; depois, entranha-se". A tempestade eléctrica viria logo a seguir.

Uma Trufa Por Dia...

Donald Alexander Strachan and The Freedom Ensemble - Soul Translation
Porque, hoje, o Mundo anda à mercê de pequenos e grandes demónios, tubarões brancos e temíveis peixes de águas profundas, o sector da Humanidade mais dado às coisas da música recorre a um tempo em que eram os 'bons espíritos' quem andava à solta. Não o faz, contudo, em busca de matéria-prima para mais uma modalidade de revivalismo mas como estratégia de sobrevivência e, de caminho, de regeneração da música do Presente. Daí, tamanha vaga de jazz espiritual: um poço de reservas de energia positiva, cujo fundo não está, ainda, à vista. Vizinha, na frente estética, das emblemáticas acções pós-free da editora Strata East, de um lugar perdido no estado de Connecticut saíu, em 1975, esta notável 'spiritual suite', que a vida no Planeta (hoje) 'darker than blue' acolhe como uma variedade de oxigénio concebida para neurónios.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Uma Maçã Por Dia...

The Electric Peanut Butter Company - Trans-Atlantic Psych Classics Vol.2
A cópia perfeita? Sem dúvida. Mas a ideia será mais esta: 'verdadeiramente falso'. Quem se julgue na presença de uma obra-prima perdida do psicadelismo californiano dos anos 60, saiba que este disco -que nem um ano tem- é o suculento fruto da cultura e do 'savoir-faire' do (hiperactivo) Shawn Lee e de Adrian Quesada (Ocote Soul Sounds e ex-Grupo Fantasma). Gravado em Austin, com o espírito em Frisco, e tomando como referência paradigmas 'oldies but goldies' como o psicadelismo de garagem, o psicadelismo de 'costela' folk, o rock-rock, o rock de 'costela' mexicana e a soul, revela um grau de interesse estético ao nível da matéria original e, paradoxalmente, um imbatível sentido de urgência. Hoje, um 'must'; amanhá, uma 'trufa'.

Uma Trufa Por Dia...

Calypso: Musical Poetry In The Caribbean 1955-69
Quase sempre associado às ilhas de Trindade e Tobago, a verdade é que o calipso 'bateu forte' em toda a região das Antilhas (antes de viajar pelo mundo, quando da 'febre' dos ritmos tropicais). Aconteceu, apenas que a maioria das outras ilhas encontrou, posteriormente, uma expressão musical própria (muitas vezes, nascida do próprio calipso) e o género ficou, para sempre, associado àquelas duas ex-colónias britânicas. A história vem toda contada no livro incluído num excelente disco (de uma editora com representação nacional) que oferece a inestimável vantagem de proceder a um levantamento das manifestações do género em toda a região das Caraíbas. De pasmar, a modernidade da maioria dos exemplos da soberba colecção.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Uma Maçã Por Dia...

Manter vivo o inestimável legado de quem já partiu. De nada mais, e não é pouco, trata "Evolutionary Minded". Motivo mais forte não haveria para fazer regressar às lides quem delas já se tinha retirado: Brian Jackson, cúmplice de sempre de Gil Scott-Heron, e uma nova versão (com elementos de Parliament e Headhunters) da lendária Midnight Band. Um problema: como superar tamanha ausência para uma melhor visita guiada (e não só) a um repertório que tanto fez pela abertura de consciências como pela expansão dos horizontes da música? Distribuindo a função narrativa por figuras como M1 (dos Dead Prez), Bobby Seale (fundador do Black Panther Party, nos anos 60), Gregory Porter (cantor), Chuck D (dos Public Enemy), Killah Priest (dos Wu-Tang Klan) e Abiodun Oyewole (de The Last Poets). Fez-se o que se pôde. Igual era difícil; e melhor, impossível.

Uma Trufa Por Dia...

Mais uma orquestra que teria mudado o jazz se não fosse conhecida, apenas, lá na rua? Exacto. Que os tempos correm de feição para os vergados ao peso da injustiça em dias de preconceito e ideias feitas, já se sabia. Que tamanha complexidade estrutural e sofisticação formal fosse possível num colectivo que se diria 'sem abrigo', já será causa de perplexidade e razão para que -também nós- comecemos por ouvir a música e deixemos a retórica cénica/ideológica para o fim. Algures entre Duke mais hardbop 'de rigueur' e a estética híbrida Strata-East/Tribe mais doses moderadas de jazz espiritual. Brilhante.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Uma Maçã Por Dia...

De novo, 'yes, we (also) can'... Baseia-se num nobre princípio: "Se um homem não segue o ritmo dos seus companheiros, talvez seja porque ouve um baterista diferente" (Henry David Thoreau). De exercer o direito à liberdade individual e, assim, soltar a energia criativa se trata. "Hasta La Vista" chega a ser empolgante na aplicação desse pressuposto conceptual. Um sax fluente e de 'sangue na guelra' a lembrar Ornette e níveis variáveis de interactividade com uma electrónica que -mesmo quando em segundo plano- nunca se faz papel-de-parede definem esta auspiciosa aventura do jazz modernista no mundo contemporâneo. Só a escassa presença do silêncio (como peça fulcral da narrativa) traz, amiúde, a saturação a uma aliciante experiência auditiva. A próxima viagem de António Ramos talvez seja perfeita.