Levaria a sério se alguém lhe
dissesse que o mais baixo da condição humana -qual singular ‘efeito borboleta’-
havia de dar origem a uma nobilíssima e refinada manifestação espiritual de
representantes mais tardios da mesma espécie?
Ou -na mesma linha de pensamento- que
dificilmente teria havido blues (bem como ‘canções de trabalho’) sem a dureza
infligida sobre os princípios básicos da natureza humana que regia o trabalho
do assalariado negro?
Só esta ideia -e, em particular, a
mobilidade da mão-de-obra- já lhe sugere por que razão a guitarra do ‘bluesman’
personificava a mulher ausente e que reflexo existencialista fez brilhar, na
noite de São Francisco, “The Dock Of The Bay”, de Otis Redding? Óptimo.
E sabia que o primeiro género genuíno
de música americana nasceu quando um negro procurava, na calada da noite,
reproduzir numa pianola os sons de banjo que os brancos lhe faziam chegar aos
ouvidos durante o dia?
Ou que o fim de uma guerra possa ter
estado na origem do jazz de Nova Orleães?
Ou que não será tão absurdo como
parece que o grande êxito da Grande Depressão de 1929 tenha sido uma canção
chamada “Life Is Just A Bowl Of Cherries”?
E gostaria de saber como uma
linguagem tão marcante como o swing teve a mesma sorte -em menos tempo- que os
dinossauros?
Ou que não há contrariedade que
detenha o engenho humano, pelo que esse fim também marcou o começo do processo
que conduziria ao advento do rock’n’roll?
Sabe, decerto, porque viajavam Booker
T. & The M.G.’s separados no autocarro para casa (os dois brancos à frente
e os dois negros atrás) depois de um dia de trabalho conjunto em estúdio. Mas
faz uma ideia do motivo que explica que o ‘grande caldeirão’ musical e, nessa
medida, o berço da música norte-americana dos nossos dias tenha sido a
Luisiana, e não o Arkansas, a Virginia ou Washington?
E há, ainda, a ‘verdade dos factos’ e
a ‘verdade de facto’: estaria errado quem admitiu, certo dia, a sua convicção
de que os Beatles eram ingleses e os Rolling Stones americanos?
Vamos procurar saber tudo isto, e muito
mais, e, assim, tentar decobrir em conjunto de onde vem a música que se ouve de
cada vez que se liga o rádio. Quem se portar bem ficará, ainda, a conhecer o
significado original da emblemática palavra ‘mojo’...
E, no entanto, sem abdicar da ideia
central de que venha a haver mais motivos para rir que para chorar, ninguém
deverá partir para este workshop sem a noção básica de que foram necessários
séculos de sangue, suor e lágrimas para se conseguir o mesmo resultado que,
hoje, se obtém mediante um clique de rato de computador.
Para que não fiquem dúvidas sobre a seriedade da ‘empreitada’, eis um
exemplo aproximado do espírito que se pretende incutir no ‘workshop’.